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Leishmaniose Visceral Canina: sintomas, diagnóstico e prevenção

Entenda como identificar precocemente a leishmaniose canina, quais exames confirmam a doença e quais medidas realmente protegem seu cão.

Cão de porte médio usando coleira repelente enquanto é examinado por um médico-veterinário em ambiente externo, representando a prevenção e o diagnóstico da leishmaniose visceral canina.

O que é a leishmaniose visceral canina?

A leishmaniose visceral canina (LVC) é uma zoonose causada pelo protozoário Leishmania infantum, considerada uma das doenças infecciosas mais importantes da medicina veterinária e da saúde pública brasileira. Além de comprometer diversos órgãos do animal, a doença também possui relevância por fazer parte do conceito de Saúde Única, que integra a saúde dos animais, das pessoas e do meio ambiente.

Sem tratamento adequado, a enfermidade pode evoluir para insuficiência renal, alterações sistêmicas e até levar o animal à morte. Em humanos, quando não diagnosticada e tratada precocemente, também apresenta elevada letalidade.

Nos últimos anos, a doença deixou de ser predominantemente rural e passou a ocorrer com frequência em áreas urbanas de diversas regiões brasileiras, tornando-se um desafio crescente para médicos-veterinários e autoridades sanitárias.

Como ocorre a transmissão?

A principal forma de transmissão acontece pela picada da fêmea do flebotomíneo, popularmente conhecido como mosquito-palha, que se infecta ao alimentar-se de um animal portador do parasita.

Embora essa seja a principal via de infecção, estudos também demonstram outras formas menos frequentes de transmissão, como:

  • transmissão da mãe para os filhotes durante a gestação;
  • transmissão venérea;
  • transfusão de sangue contaminado.

A transmissão transplacentária merece atenção especial, pois contribui para a manutenção da doença mesmo em locais onde há controle do vetor. Por isso, a castração de cães infectados pode representar uma importante medida de saúde pública.

Por que a doença preocupa tanto no Brasil?

O Brasil concentra aproximadamente 97% dos casos registrados de leishmaniose visceral nas Américas, sendo considerado o principal foco epidemiológico do continente.

Historicamente, a doença era encontrada principalmente em áreas rurais. Hoje, ela está presente em diversos centros urbanos.

Entre os exemplos documentados estão:

  • Araçatuba (SP), onde ocorreu uma das primeiras urbanizações da doença;
  • Rio de Janeiro, especialmente bairros da Zona Norte;
  • municípios do Espírito Santo;
  • Rio Grande do Sul, onde a transmissão autóctone vem crescendo nos últimos anos.

Outro aspecto importante é que o cão é considerado o principal reservatório doméstico de Leishmania infantum no ciclo urbano da doença no Brasil. Na prática, isso significa que um animal infectado pode servir de fonte de infecção para novos mosquitos, que posteriormente poderão transmitir a doença para outros cães e também para seres humanos.

Quais são os primeiros sintomas?

Um dos maiores desafios da leishmaniose canina é que nem todos os cães apresentam sintomas logo após a infecção. Estima-se que uma parcela significativa dos animais infectados permaneça assintomática por meses ou até anos, embora continue capaz de infectar os mosquitos transmissores.

Quando surgem, os primeiros sinais costumam ser discretos. Os sintomas iniciais mais comuns incluem:

  • queda de pelos, localizada ou espalhada pelo corpo (alopecia);
  • pele seca com descamação intensa (dermatite esfoliativa);
  • crescimento exagerado e deformação das unhas (onicogrifose);
  • feridas que demoram para cicatrizar;
  • perda de pelos ao redor dos olhos (o chamado "óculos");
  • ínguas aumentadas pelo corpo (linfadenomegalia generalizada);
  • perda de peso progressiva;
  • sangramento pelo nariz (epistaxe);
  • apatia;
  • diminuição do apetite.

O sangramento nasal merece atenção especial: apesar de parecer um sinal grave e tardio, ele pode aparecer bem antes de a doença estar avançada, e por isso não deve ser interpretado como algo isolado ou sem importância.

Como esses sinais podem ocorrer em diversas outras doenças, somente um médico-veterinário pode estabelecer o diagnóstico correto.

Como a doença evolui?

Sem tratamento, a infecção deixa de afetar apenas a pele e passa a comprometer o organismo como um todo. O protozoário se multiplica principalmente dentro das células de defesa do corpo — o chamado sistema fagocítico mononuclear — com maior concentração em:

  • baço;
  • linfonodos (ínguas);
  • medula óssea;
  • fígado.

Os rins merecem uma explicação à parte. Ao contrário do que se costuma imaginar, eles não são um local importante de multiplicação do parasita. A lesão renal acontece de forma indireta: o próprio sistema imunológico, ao reagir à infecção, produz complexos de defesa que se depositam nos rins e desencadeiam um processo inflamatório progressivo. É esse mecanismo, e não a presença direta do protozoário, que compromete a função renal.

Entre as complicações mais observadas ao longo da evolução da doença estão:

  • glomerulonefrite (inflamação dos filtros renais);
  • proteinúria (perda de proteína pela urina);
  • uveíte e outras alterações oculares;
  • poliartrite (inflamação em várias articulações);
  • miosite (inflamação muscular);
  • vasculite (inflamação dos vasos sanguíneos);
  • hemorragias nasais;
  • alterações intestinais.

A complicação considerada mais grave é a insuficiência renal, responsável pela maior parte dos óbitos relacionados à leishmaniose visceral canina. Por esse motivo, a avaliação da função dos rins tornou-se um dos principais fatores para definir o prognóstico e o tratamento mais adequado para cada paciente.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da leishmaniose não deve ser baseado apenas nos sintomas. O médico-veterinário normalmente utiliza uma combinação de exames clínicos e laboratoriais.

Nos programas oficiais de vigilância epidemiológica, o protocolo adotado envolve:

  • teste rápido DPP® para triagem;
  • exame ELISA como confirmação quando o primeiro teste é reagente.

Já na rotina da clínica veterinária privada, o profissional pode trabalhar com outras combinações diagnósticas, entre elas:

  • ELISA;
  • RIFI;
  • PCR;
  • exame parasitológico;
  • exames hematológicos;
  • bioquímica sanguínea;
  • urinálise;
  • avaliação da relação albumina/globulina.

O PCR apresenta elevada sensibilidade e especificidade para identificar o DNA do parasita, mas o resultado depende bastante do tipo de amostra utilizada: a coleta em linfonodo, medula óssea ou aspirado esplênico tem desempenho superior ao exame feito apenas com sangue. É por isso que a escolha do exame e do material coletado faz parte da decisão clínica do veterinário, e não de um protocolo único aplicado a todos os casos.

O que aparece nos exames de laboratório

Um ponto que costuma passar despercebido pelos tutores é que a leishmaniose deixa marcas bem características nos exames de sangue e de urina, e é justamente esse conjunto de alterações que ajuda o veterinário a confirmar o quadro e a medir a gravidade.

Entre os achados mais frequentes estão:

  • anemia (redução das células vermelhas do sangue);
  • trombocitopenia (queda das plaquetas, ligada ao risco de sangramentos);
  • aumento das globulinas e queda da albumina, com inversão da relação entre elas;
  • proteinúria (perda de proteína pela urina, sinal precoce de comprometimento renal);
  • aumento de ureia e creatinina nos estágios em que os rins já estão afetados.

Esses exames não servem apenas para o diagnóstico: são eles que orientam o estadiamento da doença e o acompanhamento do animal ao longo do tratamento.

Como a leishmaniose canina é classificada atualmente?

O tratamento da leishmaniose deixou de seguir uma abordagem única. As diretrizes mais recentes do Brasileish (2025) classificam os cães em seis estágios clínicos, permitindo que o médico-veterinário escolha o protocolo mais adequado para cada paciente.

De forma simplificada, os estágios são:

  • Estágio I: animal exposto, sem sinais clínicos e com função renal preservada;
  • Estágio II: cão infectado, mas ainda assintomático;
  • Estágio III: doença leve, com alterações discretas na pele e nos exames laboratoriais;
  • Estágio IV: doença moderada, com manifestações clínicas mais evidentes;
  • Estágio V: doença grave, com comprometimento renal importante e alterações sistêmicas;
  • Estágio VI: fase terminal, caracterizada por insuficiência renal avançada e falência de múltiplos órgãos.

Essa classificação permite avaliar não apenas a presença da doença, mas também o grau de comprometimento do organismo, especialmente dos rins, fator decisivo para o prognóstico.

Existe tratamento?

Sim. Atualmente, o tratamento da leishmaniose visceral canina é permitido no Brasil, desde que realizado com medicamentos veterinários registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e acompanhado por um médico-veterinário.

É importante esclarecer que o objetivo do tratamento não é eliminar completamente o parasita, mas sim:

  • controlar os sinais clínicos;
  • reduzir a carga parasitária;
  • melhorar a qualidade de vida do cão;
  • diminuir o risco de transmissão para novos vetores.

Mesmo após a melhora clínica, o animal continua necessitando de acompanhamento periódico e medidas permanentes de prevenção.

Quais medicamentos podem ser utilizados?

A miltefosina, administrada por via oral, é hoje o medicamento com maior respaldo científico para o tratamento da leishmaniose visceral canina no Brasil. Além dela, existem outros produtos veterinários registrados, cuja indicação depende de critérios específicos e da avaliação individual do médico-veterinário.

As diretrizes atuais recomendam que esses medicamentos façam parte de uma terapia combinada, frequentemente associada ao alopurinol, para aumentar a eficácia e reduzir o risco de recaídas.

Após o tratamento, o acompanhamento deve ser contínuo, com exames físicos e laboratoriais realizados, em geral, a cada quatro a seis meses, para monitorar a função renal e detectar possíveis recidivas.

Como prevenir a leishmaniose canina?

A prevenção tornou-se ainda mais importante nos últimos anos. Até o momento da elaboração deste texto, não há vacina contra a leishmaniose disponível comercialmente no Brasil. Dessa forma, a principal estratégia de proteção passou a ser impedir a picada do mosquito-palha.

As recomendações incluem:

  • uso contínuo de coleiras repelentes;
  • utilização de pipetas (spot-on) com ação repelente, quando indicadas pelo veterinário;
  • limpeza frequente de quintais;
  • remoção de folhas, frutos e matéria orgânica em decomposição;
  • recolhimento diário das fezes;
  • instalação de telas de proteção em canis e janelas;
  • evitar passeios ao amanhecer, entardecer e durante a noite, períodos de maior atividade do vetor.

Segundo as diretrizes Brasileish, atualmente a combinação entre repelência e eliminação do vetor representa a estratégia mais eficaz para reduzir o risco de infecção.

Leishmaniose e notificação: entendendo o papel do veterinário

Um ponto que gera dúvida entre tutores é o que acontece depois que um caso de leishmaniose é confirmado. A resposta passa por um tema pouco conhecido fora da clínica: a notificação de doenças.

No Brasil existem dois sistemas distintos, e o médico-veterinário precisa saber diferenciá-los:

  1. Notificação ao Serviço Veterinário Oficial (MAPA) — voltada às doenças animais de importância para a saúde animal e para a saúde pública.
  2. Notificação compulsória em saúde pública (Ministério da Saúde) — acionada principalmente quando existe risco para seres humanos.

No caso da leishmaniose visceral, a comunicação e a vigilância seguem os protocolos definidos pelas autoridades locais, o que significa que o fluxo pode variar entre estados e municípios. Por isso, diante de um resultado positivo, o tutor deve seguir as orientações do veterinário e do serviço de vigilância da sua cidade.

Entre as zoonoses de notificação obrigatória mais relevantes para quem convive com cães e gatos estão a raiva (de notificação imediata), a leptospirose, a brucelose, a esporotricose e a própria leishmaniose visceral. A lista completa é bem mais extensa e inclui doenças de outras espécies, e tanto as listas quanto os fluxos são periodicamente atualizados pelos órgãos oficiais.

Esse mecanismo mostra por que a consulta veterinária vai além do atendimento individual: ao registrar e comunicar um caso, o profissional alimenta o sistema de vigilância que protege toda a comunidade — outros animais e também as pessoas.

Meu cão testou positivo. Ele vai ser sacrificado?

Esta é, provavelmente, a maior dúvida de quem recebe um resultado positivo — e o principal motivo pelo qual muitos tutores adiam ou evitam testar o animal. A resposta curta é: um resultado positivo não significa, por si só, eutanásia.

Por muitos anos a política brasileira de controle previa a eliminação dos cães soropositivos, e é dessa fase que vem o medo que persiste até hoje. O cenário mudou a partir de 2016, quando passou a existir medicamento veterinário registrado no Brasil para tratar a doença. Desde então, o tratamento é legal, e o cão com tutor identificado, em acompanhamento veterinário e sob terapia com produto registrado, não é enquadrado na recomendação de eutanásia.

Na prática, isso costuma envolver algumas contrapartidas, que variam conforme o estado e o município:

  • comprovação do tratamento por meio de atestado do médico-veterinário inscrito no CRMV, acompanhado de exames recentes;
  • uso permanente de coleira repelente;
  • castração do animal;
  • identificação por microchip, exigida em alguns estados;
  • restrição da circulação do cão ao ambiente domiciliar, com passeios apenas sob guia;
  • assinatura de termos de responsabilidade junto à vigilância local;
  • acompanhamento periódico, com reavaliação clínica e laboratorial.

É importante ser honesto quanto aos limites: a eutanásia continua prevista nos protocolos oficiais como medida de controle em situações específicas, especialmente para animais sem tutor responsável, encontrados em vias públicas, ou em estágio terminal da doença, quando o próprio bem-estar do animal justifica a decisão. E as regras não são idênticas em todo o país — alguns municípios em área endêmica mantêm programas ativos de vigilância canina, enquanto em outros o fluxo é conduzido pelo veterinário particular.

Por isso, a orientação prática é uma só: diante de um resultado positivo, procure um médico-veterinário e informe-se sobre as normas da vigilância da sua cidade antes de tomar qualquer decisão. Deixar de testar o animal não o protege — apenas atrasa o diagnóstico para o momento em que o tratamento tem menos a oferecer.

Saúde Única: proteger o cão também protege as pessoas

A leishmaniose visceral canina não deve ser encarada apenas como um problema individual do animal. Como o cão é o principal reservatório doméstico do parasita no ciclo urbano, o diagnóstico precoce, o tratamento adequado e a prevenção contínua ajudam a reduzir a circulação da doença no ambiente e contribuem para proteger outros cães e também a população humana.

Esse conceito faz parte da abordagem conhecida como Saúde Única (One Health), que integra a saúde animal, humana e ambiental como componentes inseparáveis no controle de doenças zoonóticas. A notificação é justamente um dos instrumentos práticos dessa integração: é o que permite que um caso identificado no consultório se transforme em informação útil para a vigilância epidemiológica.

Considerações finais

Embora a leishmaniose visceral canina continue sendo uma doença grave, os avanços no diagnóstico, no estadiamento clínico e nos protocolos terapêuticos permitem oferecer melhor qualidade de vida aos cães diagnosticados.

A observação cuidadosa dos primeiros sintomas, a realização dos exames indicados pelo médico-veterinário e a adoção permanente de medidas preventivas continuam sendo as ferramentas mais importantes para controlar a doença e reduzir sua disseminação.

⚠️ Nunca medique seu pet por conta própria. Os medicamentos e princípios ativos citados nesta matéria aparecem para você entender o que o médico-veterinário pode prescrever, nunca como indicação de uso. Dose, duração e combinação de tratamentos dependem do peso, da idade, do histórico e dos exames de cada animal, e o uso errado pode agravar o quadro em vez de resolver. O mesmo vale para remédios de uso humano: muitos são tóxicos para cães e gatos mesmo em quantidades pequenas. Diante de qualquer sintoma novo ou piora, quem decide o tratamento é o médico-veterinário.

Perguntas frequentes

A leishmaniose canina tem cura?

O tratamento controla a doença, melhora a qualidade de vida e reduz a carga parasitária, mas não elimina completamente o protozoário do organismo.

Como meu cachorro pega leishmaniose?

Principalmente pela picada do mosquito-palha infectado. Em menor frequência, também pode ocorrer transmissão da mãe para os filhotes, por transfusão sanguínea ou via venérea.

Leishmaniose passa de cachorro para pessoa?

Não diretamente. A transmissão depende sempre do mosquito-palha: ele precisa picar um animal infectado e, depois, picar outro animal ou uma pessoa. Conviver com um cão positivo não transmite a doença por contato.

Todo cachorro infectado apresenta sintomas?

Não. Muitos cães permanecem assintomáticos durante meses ou anos, mesmo podendo participar da transmissão da doença.

Meu cão testou positivo. Ele vai ser sacrificado?

Não automaticamente. O tratamento é permitido no Brasil, e o cão com tutor identificado, em acompanhamento veterinário e sob terapia com medicamento registrado, não é enquadrado na recomendação de eutanásia. As exigências variam conforme o município e costumam incluir coleira repelente, castração e acompanhamento periódico. Consulte a vigilância da sua cidade.

Como proteger meu cachorro?

Como não há vacina disponível no Brasil no momento, a proteção depende do uso contínuo de coleiras ou pipetas repelentes, associado ao controle ambiental (limpeza de quintal, remoção de matéria orgânica) e ao acompanhamento veterinário periódico.

Fontes

  • Diretrizes Brasileish para Diagnóstico, Estadiamento, Tratamento e Prevenção da Leishmaniose Canina (2025).
  • Ministério da Saúde. Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral, 2ª edição (2026).
  • Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
  • Ministério da Saúde.
  • Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte.
  • Secretaria de Saúde do Distrito Federal.

Revisado por Dr. Dione Vieira , CRMV-RJ 13848 · Última revisão em 21 de julho de 2026

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com um médico-veterinário. Diante de qualquer sinal de doença, procure atendimento profissional.

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